A Indústria do álcool e a Promoção da ciência

EDITORIAL:
A indústria do álcool e a promoção da ciência
Addiction,103, 175-178

Raul Caetano

Por que esse editorial?
Esse editorial foi estimulado pela publicação do livro: Bebendo no contexto: padrões, intervenções e sociedade. O livro surgiu da colaboração entre 4 organizações: a Associação Internacional de Redução de Danos, a Federação Mundial de Saúde Mental, o Centro Internacional de Políticas do álcool (ICAP) e o Instituto Internacional de Pesquisas Boissons. Esse não é o primeiro momento que algumas dessas organizações têm se reunido. A Associação Internacional de Redução de Danos apóia os “Princípios de Dublin”, os quais propõem a cooperação entre a indústria do álcool, o governo e a comunidade acadêmica e científica. (www.icap.org/buildingpartnerships/dublinprinciples/tabid/249/default.aspx)
Os princípios resultam da colaboração entre o Colégio Nacional da Irlanda, o ICAP e o Instituto de Pesquisas, o qual é também participante da criação desses princípios. Essas duas últimas citadas reconhecem seus patrocínios pela indústria do álcool.
O livro é organizado em 10 capítulos: os modelos do beber, a avaliação do beber, as intervenções, os danos do beber e dirigir, as desordens públicas relacionadas ao álcool, o beber e os jovens, as intervenções minimizando danos e a sociedade.
Embora 4 autores sejam listados na capa do livro (G. Stimson, M. Grant, M. Choquet & P. Garrison), 22 outros indivíduos são identificados como “autores contribuintes”. As fontes dispostas merecem alguma atenção porque são pouco comuns. Além disso, a informação no livro “advertência” indica que existia também um “grupo editorial consultivo” com 15 de 26 autores, o qual se encontra duas vezes “sob presidência do Professor Norman Sartorius” (que não é listado como autor). Esse grupo produziu todo o plano do livro e revisou todo o rascunho do manuscrito. O rascunho foi produzido sob “guia” do principal editor, Professor Stimson. De acordo com a “advertência”, esse processo criou um senso de responsabilidade coletiva.
Interesses sobre tentativas prévias como essa de promover a pesquisa cientifica na área do álcool pela indústria do álcool já tinham sido identificadas. Apesar da tentativa de produzir esse “trabalho cientifico”, a indústria do álcool continua comportando-se de forma imoral. A indústria pratica a comercialização e a propaganda, que tem sido identificado como fator gatilho potencial na “epidemia industrial” dos problemas do álcool. Em um dos parágrafos abaixo existe a tentativa de descrever a base de intenções aparentes por trás do livro, os danos que esses esforços específicos podem engatilhar e a perplexidade de que alguns cientistas do álcool continuam a participar dessas tentativas.

O SUBTEXTO

O livro é apresentado como o aparecimento da “convicção que o tempo chegou para alguns aspectos recentes de acesso a políticas do álcool”. Palavras chaves como: cultura, contexto, modelos e sociedade estão presentes para explicar porque “intervenções de objetivos específicos” são preferidas sobre “medidas na população geral”. Explicitamente, essa é realmente uma tentativa para usar a ligação entre cultura e modelos de beber para atrair atenção sobre medidas que não tem potencial de engatilhar reduções do consumo do álcool per capita, sendo que as duas mais efetivas medidas de prevenção dos problemas com o álcool – o controle da disponibilidade e a taxação – não são ressaltadas.
O capítulo 2 inicia com a discussão de padrões de beber e seus resultados. Esse capítulo desenvolve em detalhes e discute a idéia da ligação entre o consumo de álcool e os resultados. Para tanto, é necessário entender fatores como: (1) as características dos bebedores (idade, gênero, fatores socioeconômicos) (2) o contexto que o beber ocorre (cultura, locais e ambiente) e (3) comportamento. Resultados positivos e negativos do beber também são discutidos. Secundariamente, existe uma discussão detalhada da necessidade de avaliar padrões de beber antes da implantação de políticas. Os autores nunca absolutamente descartaram o uso de taxação e redução da disponibilidade do álcool como as políticas. As políticas são referidas como inadequadas porque são “desligadas das prateleiras” ou “ uma medida para combinar todas”, devido a sua perda de atenção para a cultura que influencia praticas locais de beber. Uma das séries de instruções sobre as características do bebedor, a inclusão do beber na cultura do país e a perda da apreciação desses importantes aspectos culturais do uso do álcool pelos profissionais de saúde pública é carregada por todo o livro de uma forma ou outra. Entretanto a preocupação com quem é o bebedor, o tipo de bebida consumida, o padrão de consumo do álcool (p.ex: binge e não binge) e o contexto do beber tem estado presente nas publicações por aqueles que nos propuseram medidas de controle do nível de álcool na população como o mais efetivo meio para minimizar os problemas relacionados ao álcool.
Por exemplo, recentemente 14 autores do livro Álcool: produto de consumo não normal dedicaram todo um capitulo (cap.3) do livro para discutir a tendência do consumo do álcool e os modelos do beber. Assim como, no mesmo território de Stimson et al., focam a atenção do tipo de bebida, o contexto do beber, freqüência e quantidade do beber por ocasião, o padrão de intoxicação, gênero, idade e grupos indígenas. O foco também é presente em Babor et al., porém ninguém tem proposto a taxação e o controle de disponibilidade do álcool, que pode ser usado isolado de outras políticas desenvolvidas nacionalmente.
Para resumir, o livro aparece como uma tentativa para tirar o foco das efetivas políticas de controle do álcool na população por políticas que são focalizadas em grupos de subpopulações especiais ou naqueles direcionadas a população geral, mas não efetivas.
O estabelecimento da colaboração internacional entre a indústria, as organizações não governamentais, cientistas e fazedores de políticas aparece como uma artimanha conhecida. A dicotomia entre políticas de controle do álcool dirigidas para redução do consumo do álcool e outros tipos de intervenções focalizadas sob populações selecionadas em subgrupos não existem, e não é realizada pelos profissionais da saúde pública. Essas políticas são complementares. A real dicotomia é entre as políticas efetivas e não efetivas.


O potencial do livro para danos reais

Tudo que esse livro engatilhou foi a discussão sobre a relativa importância da política de controle do nível do álcool na população através de medidas direcionadas a grupos de alto risco. Algumas das sugestões dadas pelos autores têm um potencial para causar danos reais. Alguns exemplos abaixo.

1) Minimizando a importância da efetividade de dados nas intervenções de prevenção

Para defender o fato que muitos objetivos defendidos pelo livro são efetivos, os autores dizem que: “é importante lembrar que a perda da avaliação é por não mostrar meios de prova que não acessam certo o trabalho” Verdade, mas se existem acessos comprovados, porque selecionar os não comprovados? Minimizar a importância de dados efetivos é seriamente um aconselhamento equivocado. Isso pode levar o governo e a comunidade a gastar os recursos escassos na implantação de intervenções não efetivas.

2) Restringindo a prevenção a mulheres grávidas da síndrome alcoólica fetal

Aqui os autores defendem o foco sobre intervenções especificas em locais de saúde (avaliação, screnning, suporte, tratamento). Essas intervenções são todas direcionadas para mulheres grávidas. Esse grupo de mulheres (15-44 anos de idade) não é pequeno, constitui cerca de 41% das mulheres da população dos EUA ( aproximadamente 60 milhões de mulheres). Muitas dessas são sexualmente ativas, mas não planejaram a gravidez. Nos EUA aproximadamente 50% das mulheres grávidas a cada ano não planejaram, isso mostra que muitas mulheres que iniciaram a gravidez continuaram a beber todo o tempo da concepção e o período após até descobrirem o seu estado. Políticas específicas para mulheres que já conhecem seu estado de gravidez atrasam o processo, porque até o momento da concepção essas mulheres não sabiam que elas estavam grávidas, e muitas delas estavam bebendo também. Além disso, muitas das atividades comercializadas pela indústria são direcionadas a mulheres e homens jovens, que são encorajados a beberem recreacionalmente todo tempo. Como recomendado pela US Preventive Services Task Force e o US Institute of Medicine, a prevenção da síndrome alcoólica fetal deve ser universal, mas também seletiva (p.ex: screnning, intervenções breves) e prevenção específica (p.ex: tratamento da dependência do álcool em mulheres). O livro erra na restrição e não inclui as intervenções universais recomendadas.

3) Foco indevido sobre os motoristas bebedores pesados

Dirigir sobre influência do álcool é uma das três áreas de comportamentos problemáticos discutidos no livro. Os autores reconhecem a importância da regulamentação da lei e das medidas efetivas de controle da lei. Importunamente, muitas das outras intervenções defendidas no livro têm uma pequena ou nenhuma efetividade. Exemplos desses são os designados programas de motoristas, serviços de transporte alternativos, sites de campanhas de educação, serviços de treinamento de programas, programas educativos e campanhas de festas e feriados. Existe também um foco indevido sobre a freqüência dos bebedores pesados e motoristas bebedores pesados. Na perspectiva dos EUA, esse capítulo falha para reconhecer que muitos dos motoristas relataram beber sobre influência do álcool e não são dependentes do álcool ou motoristas que bebem pesado. Por exemplo, a análise de dados de relatos de motoristas que relataram beber sobre influência do álcool da US National Household Survey on Drus Abuse ( agora National Survey on Drug Use and Health) mostrou que apenas 11% daqueles que relataram dirigir sobre a influência do álcool nos 12 meses anteriores a entrevista eram dependentes de álcool. Adicionando os critérios de abuso do álcool faz a proporção de 30%. Uma recente análise focalizando os hispânicos nos EUA, no qual consideraram a freqüência com que os entrevistados dirigiram sobre influência do álcool nos 12 meses prévios a entrevista, mostrou que motoristas dependentes de álcool são responsáveis por 34-51% dos eventos relatados, dependendo do país de origem hispânica. Esses dados sugerem que estratégias com foco sobre o alcoolismo ou motoristas bebedores pesados falham no objetivo de atingir os indivíduos que dirigem sobre influência do álcool nos EUA. Esses são bebedores moderados que são afetados por intervenções que reduzem o consumo per capita, como diminuição do padrão de concentração alcoólica no sangue e promoção da regulamentação da lei.

4) Propondo que o limite de idade legal para beber pode não ser realístico

O livro discute o beber por “pessoas jovens” (capítulo 7) incluindo adolescentes e jovens adultos. Isso é importante porque o primeiro grupo não é permitido beber em muitos países do mundo. O segundo grupo pode beber se já apresentar a idade legal de 18 anos, como no caso de muitos países, ou 21 anos como no caso dos EUA. Os autores do livro aconselham prevenir os bebedores jovens ou menores de idade ignorando essa distinção. Existe uma hipótese aqui que permite beber abaixo da idade legal para cada local, se pode ser possível manter isso a um nível menos danoso no volume e nos padrões. Os autores ignoram a considerável evidência cientifica no suporte dos benefícios do limite de idade para beber. Esse conselho é também contraditório com as recomendações do recente relato sobre a redução idade limite para beber pelo Institute of Medicine of the US National Academy of Sciences. Os bebedores abaixo da idade legal são responsáveis por 10-20% do álcool consumido nos EUA, representando um considerável parte de todo consumo.

FUNÇÕES DOS CIENTISTAS

Se o livro é realmente falho como temos visto, porque 26 indivíduos concordaram com essa colaboração? Obviamente, a resposta não é fácil. Oito deles não são cientistas independentes, mas também trabalham para a indústria ou para organizações patrocinadas pela indústria do álcool. Isso não é surpreendente, então, que eles se esforcem para participarem. Mas sobre o que os outros 18 que são afiliados a universidades ou em uma história prévia de trabalharem com organizações e governos de saúde internacionais intencionam? Eles talvez incluam alguns que devem ter diferenças genuínas com o acesso a saúde pública e as políticas de controle do uso do álcool para reduzir o consumo per capita. Eles talvez também notem que a colaboração com a indústria ofereça uma plataforma para promover o que eles acreditam ser a mais efetiva política. De qualquer forma, existem alguns que são simplesmente ignorantes sobre a relação entre as organizações como ICAP e a indústria. Então, quem participa desse esforço específico pensando que isso foi somente mais uma oportunidade para participar de pesquisas com os colegas? Isso talvez seja difícil para aceitar que existem indivíduos numa ampla área que pode estar ciente de algumas dessas conexões e implicações. Apesar disso, isso é possível, especialmente se cada indivíduo trabalhar no desenvolvimento dos países.
Isso é importante para os cientistas que acreditam que eles são as ligações da legitima operação para realizar o que a indústria do álcool arma. Porque isto não se mostra ser motivador para responsabilizar-se por efetiva auto-regulação, os métodos de comercialização não éticos e a exploração de populações vulneráveis são mais visíveis em ambientes não regulamentados (p.ex: países em desenvolvimento). Consequentemente, a aparente ausência de ações inescrupulosas pela indústria fecha para casa, especialmente se a casa é um ambiente altamente regulamentado em países do primeiro mundo. Devido a pequena quantia de distribuição de capital a colaboração ativa da indústria de bebidas alcoólicas contribui pouco para o avanço da ciência ou da saúde pública. A indústria raramente capitaliza grandemente os projetos de pesquisas originais, e não existem evidências que a sociedade entre cientistas e a indústria tem servido algum propósito cientifico no avanço do conhecimento na área do álcool. Eles ajudam a indústria a promover a si própria como preocupada com o uso dos produtos e seus efeitos na saúde da população. O livro em questão é um bom exemplo de semelhante promoção. Isso foi lançado em London na Casa do Parlamento, e também em outros como Nairobi no Quênia e Tókio no Japão. Isso é uma tentativa clara da indústria para atingir audiência internacional entre as nações em desenvolvimento e as desenvolvidas. Por outro modo, cientistas que colaboram com esses esforços entraram na situação descrita recentemente como “risco moral”. Pode ser perigoso para os cientistas, particularmente para aqueles que estão iniciando suas carreiras.

A LINHA DE FUNDAMENTO

Essa associação com a indústria é defensível? As diferenças podem ser discutidas em ambientes mais neutros e que o tempo para a ignorância das ações da indústria entre a casa e o exterior tenha passado. Essa não é a primeira, não vai ser a última vez da cooperação entre cientistas e organizações fundadas pela indústria do álcool. Questões sobre como a colaboração deve continuar foram levantadas. Há poucos anos atrás Edwards disse: “porque pesquisadores se associam com as indústrias corrompidas que exploram populações vulneráveis, armam investimentos sobre pesquisas embasadas e pesquisadores independentes, e como, essas organizações tentam distorcer a verdade?”. Infelizmente, a questão é válida até hoje.


Traduzido por: Vanessa Andrade